Quem passa uma tarde de verão numa esplanada em Lisboa conhece o momento. Por volta das cinco, seis da tarde, o calor quebra de repente. Um vento fresco entra pelo rio, os guardanapos voam da mesa e alguém diz sempre a mesma frase: parece que o tempo mudou.
Não mudou nada. É a nortada, e chega quase todos os dias assim que o sol aquece a terra o suficiente. No Tejo, esse vento não é um imprevisto do tempo. É um relógio.
O que é a nortada?
A nortada é um vento de norte, seco e persistente, que sopra ao longo da costa oeste de Portugal, sobretudo entre a primavera e o verão. Nasce da diferença de temperatura entre o interior, que aquece depressa sob o sol, e o oceano Atlântico, que se mantém frio o ano inteiro por causa da corrente das Canárias.
Essa diferença cria uma brisa marítima clássica: o ar mais frio do mar avança para terra para substituir o ar quente que sobe, e o resultado é o vento que Lisboa sente a apertar sobre o Tejo no fim da tarde.

Porque é que a nortada aparece sempre à tarde?
De manhã, a terra ainda não aqueceu o suficiente para criar essa diferença de pressão. É por isso que o Tejo costuma estar mais calmo nas primeiras horas do dia, com a água quase lisa em frente a Lisboa.
Ao longo da tarde, o interior do país aquece, a diferença de temperatura com o Atlântico aumenta e a nortada ganha força. É por isso que o vento parece sempre chegar à mesma hora: não é coincidência, é o ciclo térmico do dia a repetir-se.
A nortada é igual todos os dias no Tejo?
Não. A intensidade varia com a estação e com as condições sinópticas mais amplas, como zonas de alta pressão sobre o Atlântico. Segundo o IPMA, citado em reportagens recentes sobre o tema, a nortada tende a manter-se forte entre a primavera e o início do verão, e pode trazer avisos amarelos quando se combina com outros sistemas de vento.
No estuário do Tejo, o efeito ganha ainda outra camada: a geometria do rio, mais estreito perto de Lisboa e mais largo a montante, funciona como um funil que acelera o vento em certos troços.

Como é que a nortada muda a navegação no Tejo?
Para quem navega ou organiza um evento a bordo, a nortada é informação, não um obstáculo. Embarcações maiores e com casco estável sentem pouco a ondulação curta que este vento cria perto da margem. A rota e o horário de embarque, ajustados a tempo, evitam a hora em que o vento aperta mais.
É por isso que quem trabalha todos os dias no Tejo aprende a ler o vento como lê as marés: como parte da paisagem, não como uma surpresa. Se as marés do Tejo também lhe despertam curiosidade, vale a pena perceber porque o rio muda de tamanho duas vezes por dia, ou porque voltaram os golfinhos ao Tejo.
Perguntas frequentes sobre a nortada em Lisboa
A nortada só acontece no verão? É mais frequente e mais forte entre a primavera e o verão, mas pode surgir noutras estações sempre que as condições térmicas e de pressão se alinham.
A nortada é perigosa para quem anda no rio? Por si só não é. Torna-se um fator a gerir quando se combina com marés vivas ou mau tempo, daí a importância de quem decide a rota conhecer bem o Tejo.
Onde se sente mais a nortada em Lisboa? Sente-se em toda a frente ribeirinha, mas é mais notada nas zonas mais abertas ao rio, como Belém, a Expo ou o Cais do Sodré ao fim da tarde.
Da próxima vez que o vento apertar de repente às cinco da tarde, já sabe: não é o tempo a mudar de ideias. É Lisboa e o Tejo a seguirem um ritmo que se repete há muito mais tempo do que qualquer esplanada.